hey, o.w.

O Rio é a cidade das esplêndidas praias e dos sórdidos banhistas.

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Desde criança, o velho me ensinou a avaliar bem as pessoas. Me dava toda espécie de conselho, e não parecia se importar muito se eu os seguia; avisou-me para não confiar nas pessoas de cabelos cor de fogo. Avisou-me a não confiar meus pertences ao banco. Avisou-me também a noivar, mas não casar. Ele dizia que se lembrava perfeitamente de ter casado, mas nunca de ter ficado noivo. Mulheres. Ele tinha uma vasta coleção de conselhos sobre elas, e, admito, uma leve opinião machista e inflexível. Afirmava que com frequência transformava as mulheres, mas que estas jamais o transformavam, pois a única forma de fazê-lo seria o enfadar a tal ponto que o interesse pela vida desapareceria. Eu, jovem, curioso e completamente enamorado da vida, duvidava muito de seus conselhos, e na maior parte do tempo o deixava falar sozinho, olhando-o mas sem realmente olhar, perpassando as orbes pelo recinto com o ar divagatório de quem está refletindo sobre outra coisa.

Minha primeira mulher foi Mariana. Ela era linda, simplesmente linda, com longos cabelos morenos que dançavam em suas costas a cado passo meigo daquele corpo lirial. Eu a amava perdidamente, mas ela correspondia meu amor com palavras vazias e olhares vagos, que eu, insensatamente, não atribuía a nossa relação. Nossa primeira noite juntos foi maravilhosa para mim, embora não tivesse certeza que o foi para ela. Pois era a minha primeira, e estava inspirado pelo encanto que só a inexperiência pode conferir. Mas não era a primeira dela.

Dois meses se passaram. Tivemos nossa primeira discussão, que me pareceu pueril demais devido a importância que tinha. Era alguma besteira sobre carne e vegetarianismo; Mariana condensava sua rebeldia adolescente no ativismo, e desconfiava que ela não entendia a intenção de metade das coisas que julgava defender.

Nosso relacionamento acabou no dia em que ela me persuadiu a comer carne de soja, e inventou de dizer que aquilo faria parte de nosso cotidiano. Discutimos ferozmente, colocando em jogo todos os defeitos que encontrávamos um no outro, e devo ter vencido esse jogo, pois ela saiu de casa batendo os pés e a porta. Fiquei triste. Algumas semanas depois, a vi com um ativista muito mal acabado, de cabelos sujos e encaracolados, além de um olhar pernicioso que me fazia duvidar de suas boas intenções em relação ao planeta. Ela parecia feliz, tão feliz como quando estávamos juntos, e afastei-a da mente imediatamente. Depois de um tempo, comecei a degradar minha moral frequentando lugares sujos e indecentes, fazendo coisas que o velho condenaria apontando um dedo gorducho bem na minha cara.

Cinco meses depois de tudo isso, recebi, numa cálida e ensolarada manhã de novembro, a notícia que Mariana havia falecido. Ao que parece, pegara alguma infecção fatal numa de suas viagens em ” prol e ao redor do mundo ”, como ela costumava dizer.
Sorri e voltei a bebericar meu café.

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